Gestão em chamas: descaso, imoralidade, incompetência e irresponsabilidade

Por Jairo Martins, presidente executivo da FNQ

Há uma semana, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi consumido pelas chamas de um trágico incêndio, que protagonizou a maior perda histórica e científica do País. O mundo se comoveu e o Brasil contabilizou mais uma vergonha, entre tantas que temos exibido nos últimos anos. Se a nossa reputação estava reduzida a um frangalho, agora se transformou em cinzas, perante à comunidade internacional e a alguns poucos da sociedade brasileira, já que a maioria, de tão descrente ou por desconhecimento, achou normal o acontecido.

Com 90% das cerca de 20 milhões de peças de um dos maiores acervos da história natural e da antropologia das Américas ainda fumegantes, como era de se esperar, iniciou-se a típica cena de busca por culpados e do jogo do empurra-empurra. Ministros culpam governos anteriores, que culpam a universidade que administrava o museu, que culpa o reitor, que culpa o diretor, que culpa os bombeiros, que culpam a Companhia Estadual de Águas e Esgotos, que culpa a ferrugem dos hidrantes até chegar na falta de logística e de capacidade da infraestrutura. “Não é comigo”, a culpa é sempre do outro.

Dois dias depois do desastre, o Governo Federal reúne ministros, presidentes de instituições e representantes de empresas privadas para destinar verbas para a reconstrução do museu incendiado e, ainda, para outros museus. Agora? Não é tarde demais? De que adianta chorar sobre “as peças queimadas”? Aliás, onde foram parar os R$ 51 milhões das malas de Geddel Vieira, os R$ 500 mil da mala de Rodrigo Loures e as joias de Sérgio Cabral? A conservação do patrimônio não seria um bom destino para esse dinheiro? Sem contar como o dinheiro que pode ser arrecadado com a redução da ineficiência da “máquina de gastar” dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário; com as propinas que o empresariado deixa nas mãos dos políticos, para facilitar negócios; com a venda do Triplex do Guarujá e do Sítio de Atibaia, entre outros.

O incêndio do Museu Nacional, apesar de trágico, pode ter a sua utilidade sim - evidenciar que o nosso País passa por uma séria crise de “accountability” generalizada. Uso a palavra inglesa porque a tradução “responsabilidade” não é suficiente para expressar o hiato que estamos vivenciando: “falta de responsabilidade, com ética e comprometimento”. Isso não é privilégio da comunidade política, mas também dos empresários que se omitem diante dessas aberrações que fazem o País afundar a cada dia, tornando-se coniventes com toda essa bandalheira, com uma mera visão de curto prazo.

Ora, minha gente, está muito claro que o Museu Nacional foi vítima da má gestão, do descaso, da incompetência e da irresponsabilidade. Da interferência de partidos e seus políticos imorais, mentirosos e despreparados, sem conhecimento técnico e administrativo, na condução de ministérios, secretarias, empresas estatais, entidades, escolas, hospitais e universidades. O que mais precisa acontecer para que se entenda, de uma vez por todas, que o fato de ser político não qualifica o bom profissional e o bom gestor? Presidente, governadores e prefeitos - despertem de uma vez e cerquem-se de pessoas sérias e capacitadas, que entendam o seu ofício!

“Lições aprendidas” é um dos Fundamentos da Excelência. Será que as cinzas do Museu Nacional não podem ser o marco institucional para simbolizar a recuperação moral do Brasil e o resgate da confiança interna e externa de que tanto precisamos?

É hora de se posicionar e fazer acontecer, antes que as labaredas de outros incêndios, que estão por vir, fujam ao nosso controle e não tenhamos mais tempo para apagá-las.

Este texto foi publicado originalmente no site da Fundação Nacional da Qualidade

 

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